Por uma literatura mais profana

Marçal Aquino, no programa Provocações da TV Cultura:
“(..), sequer me considero um escritor. Sagrada é a literatura.”

É da semelhança disso que me vem o incômodo, colocar a literatura no lugar daquilo que, aos mortais, é inatingível. E há, de fato, um Olímpio para quem, hoje, determina o estético valor das letras. É como reconhecer um bom vinho. O sujeito faz um curso e aprende o sabor do sim e o sabor do não. Não depende mais do que é palatável à particularidade de cada um, mas a um conjunto de Best Sellers e Prêmios Literários que propagam seus ditames de lá e para cá, nas tendências que se criam e que se fazem lei.

Na lei, uma crítica ao Paulo Coelho: o que ele faz não é literatura! Eu já cansei. Tanto, que passei a defendê-lo, e em literatura. Se é de gosto ou não gosto, não importa, é de cada um. E se Houaiss define literatura como sendo o uso estético da linguagem escrita, problema dele, eu defino como um conjunto de palavras que compõe um todo que narra, faz rima, ficção, paródia, declama, conta, romanceia e por aí vai, inventa, cronica.

A estética existe para cada um dizer sobre o seu (apenas isso) gostar de ler, que é diferente do gostar de ler das outras pessoas. E aqui vale a nota: pode não ser imortal, posto que é chama. É que um livrinho de banca de jornal pode ser mais infinito que outro, preso ao cordão de ouro de uma literatura para poucos. Por que não colocar aquela pedra de gelo na taça do vinho ou uma boa colher de açúcar? Aquilo que está no lugar do inatingível diz pouco a um povo e não há leitura que o sustente.

Mas quem foi que disse? É que sacramentar as letras não me parece boa idéia. É colocar a literatura ao nível de Deus. No lugar do inquestionável. E nesta seita, como na política ou qualquer outra forma hierarquizada de sociedade, o topo é uma minoria de semideuses, aqueles que manipulam a lista dos 10 livros mais vendidos da semana, determinam os vencedores do prêmio Jabuti e, por aí vai, ditam tendências. A cachaça tem que ser de Salinas enquanto Rosa Montero, em seu livro A Louca da Casa, diz que o romancista isto, que ele aquilo e coisa e tal, mantendo a literatura no lugar do mito.

Tem muita igreja e templo abandonados, como tem muita biblioteca vazia. Um escritor que sequer se diz escritor remonta um equívoco: a literatura, aquilo que ele não faz (o que se faz então?), não é para um leitor profano, aquele que lê caixa de cereais à mesa do café, bula de remédio, letreiro de ônibus ou busca informações na Revista Veja, tão condenada pelos jornalistas, intelectuais e pensadores de fino trato.

O que mais me deixa com a pulga atrás da orelha é ver que as pessoas que colocam a literatura para trás dos montes são as mesmas que ditam o ato de escrever: deve-se ter um bom início de parágrafo, deve-se evitar a mesóclise, tratar-se-á de escrever frases curtas e, para todo o resto, não se esqueça da literatura engajada, aquela que vem da tragédia, da fome, da sede, da guerra, do nazismo, da miséria, da cor, do gênero, da raça e da pobreza.

Pois sagrada é a literatura, dizem! Não pode ser de re-uso como uma meia furada, ou rasurada, amassada, escrita e reescrita com palavras do povo, consumida profanamente ou atirada aos porcos, embora fale deles. E para todo templo de admiração impalpável, paredes e mais paredes recobertas pelas obras dos grandes mestres. E neste museu não se pode tocá-las, apalpá-las, folheá-las ou fotografá-las, apenas manter-se à ausência: “sequer me considero um escritor”.

É como impedir os olhos da leitura, cegá-los depois da alfabetização.

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Abaixo, um vídeo de incentivo a leitura
(para longe do lugar inatingível de uma literatura para poucos:

Ler devia ser proibido
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