Das menções honrosas

Sobre prêmios e literatura existem muitos pensamentos que são contra e muitos que são a favor. E muita discussão também. Na linha dos argumentos das boas defesas, aquela politicamente correta: certo seria que os prêmios visassem os escritores novatos, como forma de revelação e apoio. Eu, novata, apoio, concordo, endosso, assino embaixo. Talvez quando eu for mais experiente, macaca velha, com os quadrigêmeos a tiracolo, talvez quando isso acontecer eu mude de lado e queira garfar a outra fatia, aquela dos prêmios de boa grana: os 30mil do Jabuti, os 50mil do Prêmio Cruz e Sousa e os 100mil do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa. Mas como sempre resta uma esperança, os 200mil do Prêmio São Paulo de Literatura vão, nessa mesma quantia, tanto para autores de longa estrada quanto para aqueles que são estreantes. Daí por diante é só pensar no conjunto a obra, atingir um nível Prêmio Nobel e embolsar a grana da aposentadoria lá pelos 70 anos.

Tem prêmio literário que é um engodo (e estou diferenciando prêmio de concurso, se é que, em literatura, exista tal diferença). Serve mesmo para encher os bolsos dos organizadores com a taxa de inscrição e a recompensa é a edição de um livro-coletânea com cerca de 250 exemplares a serem distribuídos pelos próprios autores-vencedores. E olha que a comissão organizadora ainda exige a doação dos direitos autorais. E tem prêmio que, mais acima desta constelação para enriquecimento com dinheiro alheio, pode ser uma boa estratégia de divulgação, pode representar o ingresso do autor estreante na mídia e coisa e tal. E para estes, aquilo que é de consolo, a Menção Honrosa. Um bom exemplo é o Prêmio SESC de Literatura, muito desejado pelos autores estreantes, já que é destinado apenas a eles. A premiação, em duas categorias – conto e romance – é a publicação de 4 mil exemplares do livro e um contrato com a Editora Record (10% preço de capa). A outra grande graça é o autor participar, Brasil adentro, dos eventos de literatura promovidos pelo SESC.

Estou de olho nesse prêmio. Tanto que, ao ver a lista e os comentários dos vencedores de 2008 (resultado divulgado em março de 2009), algumas coisas me chamaram a atenção. Principalmente as Menções Honrosas. Do total de 457 inscrições, 20 romances e 51 livros de conto chegaram à fase final, resultando em 1 vencedor por categoria. Até ai, nada de novo. No entanto, com 31 livros a menos, a categoria romance embolsou mais três menções honrosas, nenhuma foi destinada aos livros de contos, maioria das inscrições. O fato é que deve haver um motivo que eu, longe, não posso afirmar, apenas especular.

Um amigo meu, poeta português e vencedor do Prêmio Júlio Brandão (cujo qual eu nunca ouvi falar, mas que altera o status literário do gajo), foi categórico: é mais fácil escrever um romance do que um conto. Na ocasião eu não entendi, não saquei, não peguei. Ele dizia que era por conta do conflito e da estrutura dos textos e coisa e tal. E mesmo ele me dando argumentos consistentes para a defesa de sua teoria, eu, pela obviedade do menor número de páginas, continuei acreditando que seria infinitivamente mais fácil escrever um bom conto do que um bom romance (eliminando-se o talento natural de cada um). Pensava assim até a divulgação do resultado destas menções honrosas, agora já não sei.

Sei que deve haver uma razão mais plausível para que as honras aos livros de contos deixassem de serem dadas. Ao pé da letra, Menção Honrosa é uma distinção conferida a uma obra não premiada, porém merecedora de citação. Um prêmio (de consolação?) dado por um ato que, embora não tendo sido distinto em primeiro lugar, merece ser citado. Aí que está o cerne da questão: nenhum outro livro de contos mereceu tal citação? Não houve, de fato, honradez? Mérito? E se não teve nada disso, até que ponto o livro vencedor é, de fato, uma porta de entrada à literatura? E de qual literatura estamos falando?

São questões interessantes. Será que meu amigo poeta não está com a razão? Que não é tão simples assim escrever um conto e que, então, esse bando de novos autores recorreu ao mesmo erro que o meu, de acreditar que a quantidade de páginas breves facilitaria o ato de ser um bom contista? A sentença “sem honra, sem qualidade literária” me escancara dúvidas. Será que não venceu o menos pior? Por outro lado, os prêmios, os concursos, os campeonatos, os jogos não são assim? Naquela leva, naquele ano, naquela vez vence, de fato, o melhor plantel. Coisa de momento.

E olhando pelo borne exato da coisa, de qualquer forma, ser o melhor entre os piores – com ou sem menção honrosa – resulta em oportunidade, não se pode negar. Então que ela seja bem aproveitada, pois, como dizem, a ocasião faz o ladrão.
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