Se você quer ser um escritor, estabeleça um plano


No próximo dia 30 entrego o livro para a Funarte. Também é o dia da qualificação do meu doutorado em esportes. E tem exatos 4 anos e meio que eu:

1. decidi ser escritora (reconhecida e blábláblá e coisa e tal)
2. entrei no curso de doutorado em esportes

Tracei o plano aos 30, quando nasci de novo, boêmia. Uma ideia simples: arrumar uma fonte de finaciamento em que me desse mais tempo para o mundo das letras do que aquele que eu tinha. E para este ganha-pão, um ofício que eu pudesse tirar de "letra".

A estratégia: dedicar-me às disciplinas e ao doutorado no primeiro ano para, na contrapartida, e me distrair, continuar na boemia e ir em todos os eventos literários que eu soubesse existir {só para conhecer o ambiente em que estava prestes a esmurrar a porta com os dois pés, começando com o direito}. Isso foi em 2007, ano em que, para incrementar a carreira docente, acrescentei no desafio um curso de especialização em Divulgação Científica. Muita gente não acreditava, alguns poucos me admiravam.

Para 2008 a mesma estratégia de ir a eventos literários, ler bastante livros e fazer muitas e muitas pesquisas na internet. Terminar o curso de especialização [aqui teve um porém que, por ser porém, fica pra ser contado em outra ocasião], terminar as disciplinas faltantes para o doutorado e iniciar a pesquisa bibliográfica e a escrita da tese com algumas ideias em papel rascunho. Ok.

E em 2008 eu ergui as mangas: comecei a escrever (casualmente) para o Jornalirismo (que ainda continua na casualidade, infelizmente) e para o Portal Comunique-se! (também muito casualmente) e outras ações que cito abaixo:

- Participação no 1º Festival da Mantiqueira - Diálogos com a Literatura depois de ter ganhado o concurso de frases que me deu o direito de ir para o evento com tudo pago e fazer a oficina de contos com o Marcelino Freire. Foi a primeira ocasião em que estive cara-a-cara com alguns escritores que estavam na mídia. O debate mais caloroso envolveu o Marçal Aquino e o Mário Prata na tenda principal. Nunca vou me esquecer disso e da conversa que tive com o Zuenir Ventura. Também pelo fato de ter conhecido a Beatriz Galvão, agitadora cultural, amiga das boas e companheira para muitos eventos futuros: gomeral, flip, etc, etc, etc...

- Também foi o ano do Cartografia Web Literária, evento que aconteceu no SESC Consolação e que originou o texto Cerveja Escarlate {levei um susto com algumas personas do mundo literário} e a publicação, no Portal Cronópios da crônica N'inhos Virtuais. Esta última, sem o apóstrofo, acabou indo parar no livro Língua Crônica, história que está algumas linhas pra baixo.

- Quase na mesma época aconteceu o Seminário de Violência e Literatura no Centro Cultural São Paulo, ocasião em que participei da palestra-oficina do angolano Nelson Saúte e conheci outras pessoas bacanas no mundo literário e, principalmente, do cenário das "letras das línguas portuguesas". Veja como foi a programação aqui.

Empolgada com esse envolvimento literário que então se iniciava, resolvi fazer uma oficina de contos com o escritor Marçal Aquino, também no SESC Consolação. Um cara bacana que produziu camisetas para a turma com os dizeres "eu leio os russos", escrito em russo, claro, e só pra fazer todo um sentido. No balanço dos meus planos iniciais, a conta era simples: eu tinha mais 1 ano e meio, e só, para me tornar uma escritora, de pouca mídia mas de fato. E o fato é que era preciso que eu virasse a mesa e, pelo andar da coisa, eu tinha pouco tempo para isso.

Então em 2009 eu fiquei sabendo do Concurso de Literatura que ocorre anualmente na União Brasileira de Escritores, sede do Rio de Janeiro. Foi assim que, de repente, eu tinha dois meses para montar um livro de crônicas e coisa e tal, um desafio. Juntei todas as crônicas que eu já havia escrito na vida, e isso significava todos os 5 ou 6 textos que eu havia espalhado pela internet no ano anterior. Tudo eles, em doc conforme edital, espaçamento duplo, TNR 12, não chegavam a 25 páginas escritas e isso significava que eu tinha muito o que fazer. Foi a primeira vez que eu escrevi longe do conceito de inspiração e perto dos conceitos de produção e trabalho. Consegui fechar 60 páginas nem tão boas quanto eu gostaria, sem uma unidade, mas com uma estratégia: trilogias. É que, com pouco material em mãos, eu tinha que dar um jeito de conferir uma certa unidade a um livro com textos tão diversos em conteúdos, formas e temas. Foi aí que, então, nasceu o Língua Crônica, ainda inédito e segundo lugar com direito à cerimônia de premiação na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.

O doutorado ficou um pouco de lado para dar espaço ao romance da vida real e coisa e tal. Um ano ok dentro do planejamento e do esperado. O que não se esperava ficou mesmo pra 2010, uma baixa emocional que me levou a chorar 3 meses seguidos por todos os dias. Para me reerguer, a decisão: tirar o Língua Crônica do ineditismo e publicá-lo. Edição independente, pensada depois de muitas e muitas pesquisas sobre o mercado editorial e coisa e tal. Até que, em novembro, o lançamento com direito a festa, amigos, muitos, e música ao vivo. Também como parte desse sair do fundo do poço das emoções que não damos conta, resolvi, de última madrugada, escrever um projeto de contos para concorrer à Bolsa de Criação Literária da Funarte, mais de 1500 concorrentes para o sudeste e 30 vagas, uma minha e um novo ânimo para secar as lágrimas de tristeza e deixar surgirem novas, de alegria. E, no saldo positivo para a literatura, um ano negativo para o doutorado e para o amor.

O fato é que, num dia desses de 2010, eu acordei e me dei conta de que eu tinha um livro {ainda inédito} premiado e uma bolsa de literatura super concorrida para um outro livro que eu sequer sabia se seria capaz de escrevê-lo. O Língua Crônica deixou de ser inédito e está seguindo seu próprio caminho em 2011 com direito a inscrição no Jabuti e tals {a meta é ficar entre os finalistas, vamos que vamos!}. E até o fim dessa semana eu entrego os 12 contos da proposta Funarte, um desafio que conto em outra ocasião.

Estamos em 2011. Nestes primeiros seis meses do ano eu escrevi meu primeiro livro de contos e eu vivi todo um doutorado deixado de lado durante um ano e meio. E, embora eu tenha me atrasado com a tese e deixado para terminá-la em último mês antes do jubilamento acadêmico, recuperei a certeza de que é possível virar a mesa sim, basta querermos.

Hoje, além de tudo isso, dou aulas em um curso de graduação e em outro curso de pós-graduação. É a verba que me sustenta. Ou quase. E para os próximos seis meses espero:

- Inscrever o livro de contos no Prêmio SESC de autores estreantes. Quem sabe não sai uma publicação de grande editora.

- Esquematizar de uma vez por todas os espaços físico e virtual do Letra Corrida : Ateliê de Literatura e Criatividade.

- Terminar o doutorado.

Aproveito o espaço para agradecer a todos que sempre estiveram comigo durante esses anos e pedir as devidas desculpas pelo sumiço da boemia que, em breve, me terá em regresso junto com as novas propostas para o blog Ser-Tão Paulistano.

Obrigada, amigos!
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